quarta-feira, 25 de julho de 2012

O contrário do mesmo


O avesso do mundo seria o seu sorriso invertido para dentro de mim. Poesia em silêncio faz cócegas. Coloque suas pernas viradas para o céu, não deixe que as nuvens entrem no seu ouvido – é poeira mágica que embaça o coração. O mundo pelo avesso é soltar balões e ir buscar no quintal de casa. Parece tudo tão mais fácil quando eu corro sobre a poeira branca e encontro a tinta embaixo dos pés, é como repintar um lugar onde não há casas, só rostos esperando por um novo sorriso, e o mundo pelo avesso. Vice-versa.

(Teresa Coelho)
26/07/2012

Última estação


Meu olho é de vidro e ilusão
Cacos de ilusão
Penetram a retina
Afugentam o sangue doente
E escorre pelos meus seios
Escondendo de tuas marcas,
O tempo
Às cinco horas da manhã
Peguei um trem voltando
Perdida na única noite
Que pude despir o céu
E quando o sol apareceu
Já não fazia sentido
Brilhar, queimar...
Sua luz era o que faltava em mim

(Teresa Coelho)
26/07/2012




domingo, 22 de julho de 2012

Maria


Naquele quarto frio, teus lábios se fizeram de quina para uma esquina cega. Explodi na tua boca, enquanto o tempo levava minha voz para longe da tua casa de vento. Cerro a lembrança de tuas costas como um movimento contínuo de olhos vedados à procura da luz branca, que une todos os músculos à alma. Estado líquido de espírito, estado ausente - estar ausente. Sobras de um coração sorrateiro e restos de luz, que o final da tarde interrompe para projetar a ilusão do pôr do sol e dos beijos em farrapos. A Maria do quarto frio tem a desordem de sua vida como uma porta que nunca precisou ser fechada, pois era livre por dentro.

(Teresa Coelho)
22/07/2012

quinta-feira, 12 de julho de 2012

As cores de Sofia


Sofia enfeitava os cabelos sem saber o que amadurecia no toque de suas mãos. Naquela manhã fria, ela sabia que sair do quarto desmancharia seu penteado – alguém iria descobrir o quanto ela esforçava-se para não demonstrar sua feiura. Pobre Sofia, tão feia, que não sabia sorrir. Quando deitada na cama, o mundo parecia girar só para si, as cores surgiam dos olhos como um choro num grito trépido. Cansada de ouvir tolices sobre o amor, o perfume, a companhia e a lealdade, decidiu trancar-se num mundo cru – o cru e a poesia suja agora eram sua verdade. ‘’Quem precisa de beleza quando se tem um coração doente implorando por solidão?’’, era o que Sofia repetia olhando para o teto, tentando devorar o choro, enquanto percebia-se, mais uma vez, sendo devorada pela vida.

(Teresa Coelho)
12/07/2012

sábado, 16 de junho de 2012

Fantasma


Moça, você ainda não se foi, moça?
Vá embora, vá
Estendi seu vestido branco e verde dentro do escuro
Está tarde para recordar, moça
Sei que você não me ouve
E eu nem mesmo existo, moça...
Olha, tocarei em sua porta dia desses
Só para olhar de longe
O feitiço da sua pele
Prometo não levar flores nem vou lhe acordar
Mas acorda, moça...        
 Ô moça,
Você ainda me dói!
Deixe estar
Fique apenas com o as flores
Adeus.

(Teresa Coelho)
16/06/2012 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Noite

Desde o primeiro rompimento
 Entre as peles secas
Na saliva, nas unhas e nos músculos
O desassossego de duas almas
Amando-se no desencontro do tempo
De encontro ao mesmo sexo
Destravam os gritos dos corpos
Fotografando o nu em fogos de artifício
Numa única cena de todos os demônios
 Expurgados da carne
Como arrepios nascidos dos dedos...
A noite come os delírios
Que a minha poesia geme.

 Teresa Coelho 13/06/2012

terça-feira, 5 de junho de 2012

Perdoe-me a confusão

Tentei pedir perdão pelos dias que acordei e não coloquei meus pés no chão, mas havia tanto engano e tantas palavras que me separavam de estar viva, e sobre meus pés. Pedia todas às noites para que o céu não fosse infinito como dizem nos livros; era tão insuportável imaginar algo que não tivesse um fim, doía-me a falta de ar, no mais, o sono sempre conseguiu ser maior que o céu e qualquer outra coisa que desviasse meus sonhos. O sono às vezes parece aliviar esse cansaço precoce de preocupar-se com tudo, quando se é criança. Todas as vezes nas quais o chão tocou-me os pés, percebi que aquilo era concreto, e voar já não seria mais interessante, porque ao tocar o chão, senti em mim muitas mulheres esperando seus pássaros serem soltos. Que triste é atirar-se mulher sem ser, nem que por um dia, milhares dela! Arrependo-me por esta noite de não estar sentada num canto escuro, confessando minha angústia com o peito nu, soltando pássaros que querem andar. Teresa Coelho 06/06/2012