-- Paralisada, disse ela para as mãos. – Se mexam! Se mexam! Implorou com certa conformidade no tom de voz. A menina dos cachos quebrados ficou sozinha na calçada da rua esburacada e escura. Guardava dentro dela um segredo que nem ela mesma lembrava se era verdade ou vontade de ser. Mas o que queria aquela criatura desnutrida de sonhos, parada numa rua desconhecida? Ela crescera lá. E crescera no interior de sua infância uma coisa crua e sem cor, sem muitas lembranças práticas... Não tinha culpa se não se lembrava das coisas significativas. Todavia, o que poderia ser mais significativo do que não saber pela primeira vez que não é preciso comparar flores e estrelas? Os sapos começavam a morrer na estrada, o vento gélido e úmido endurecia a saia e arrepiava de alguma forma mágica cada poro de suas coxas brancas e sem vida. Abaixou a cabeça por um momento e percebeu seus pés afundarem na areia que ia arranhando gradualmente suas feridas encobertas pelo tempo. No silêncio do desconhecido é que ela pudera reconhecer suas verdadeiras coisas: o ritmo da respiração; o gosto de sangue na língua; a testa quente; o relógio atrasado; o peso nos olhos; o cansaço dos ombros; o descaso às coisas complexas; a bagunça da sua história. Só que sem perceber suas mãos começaram a se mexer. Ela acordou para fora e berrou feito um animal ferido:
--Mãe, eu ainda tenho vida!
(Teresa Coelho)
09/09/2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Meio
Acordei meio parida, meio vivida, meio alguma coisa por completo. Deixei minhas roupas sujas no chão mofado do meu quarto, deu vontade de me deitar junto delas, de peneirar minha existência sem existir. Sobressaltei minha cegueira sobre as árvores e caí dura e rachada no chão, feito uma barata que não morre de tanto apanhar. Eu nasci pelo avesso da sensibilidade e está tudo tão bagunçado dentro de mim, que não consigo me mover nem puxar o lençol para me cobrir. Sabe quando a alma treme na palma da sua mão e não tem como você salvá-la sem deixar o corpo desfalecer junto? Ainda sinto minha pele gritando, ainda sinto o calor abrasivo das minhas mãos prendendo a verdade na boca, ainda sinto a fome dos aplausos exaustivos no meu estômago. A partir de agora é ter que ver o dia se acabando e misturar meu encanto, meu tormento, meus calos e minha eterna melancolia pendurados na minha espera melada de sonhos e saudade. O sol se foi.
(Teresa Coelho)
08/09/2010
(Teresa Coelho)
08/09/2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
Exposto
Parece que minha vida cresce para dentro, se enraizando na minha genética enlodada, primitiva, crua e ensangüentada. Minha visão ressecou por esses dias, foi tomando forma de ardência molhada, molhada da urina que escorreu incessantemente pelos meus olhos. Não é cedo para conhecer o que faz sentido. Ai! Parece que viver rasga um pouco nosso lado esquerdo... E continua rasgando. Minha cabeça gira, gira, gira, não para de girar enquanto você grita comigo, enquanto você descostura a paz remendada. Faz café fraco de manhã e bebe morno prá esquecer que tem o resto do dia para pensar no que eu me tornei... Mas é o que eu sempre fui. Porque procuro no mundo o seu abraço e acabo machucando meus braços de tanto me abraçar; é vazio. É frustrante. Cada pedaço dessa casa desmonta quando nossos olhares se cruzam. Dá medo tocar na minha essência? Dá nojo saber que essa verdade toda é minha própria vida? Falta força para chorar perto do seu abrigo, que já não me ampara de laços indeléveis e beijos quentes. Nossa relação virou adeus todas as manhãs. Eu estou me despedindo agora, minha dor não é mais virgem.
(Teresa Coelho)
(Teresa Coelho)
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Cada Batida
Meu corpo caído no teu corpo e o teu coração faz: tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum tuntum...
Não consigo mais segurar meus braços fardos, presos aos teus...
Deslizando no suor que expiramos ao mesmo tempo, que nos molha e escorrega no nosso sôfrego desespero de amar e gritar e entrar na necessidade barulhenta e delirante da noite...
De repente provo teu contorcionismo, sobreponho minha boca perto, quase dentro do teu ouvido e expurgo toda a infinidade de prazer num desabafo só... Tem nos teus olhos um pedido de desculpa por existir e um suplício de afeto por ter paz no inferno.
Teu corpo caído no meu corpo e minha alma sussurra: não vá embora nunca mais.
Tum, tum, tum...
(Teresa Coelho)
19/08/2010
Não consigo mais segurar meus braços fardos, presos aos teus...
Deslizando no suor que expiramos ao mesmo tempo, que nos molha e escorrega no nosso sôfrego desespero de amar e gritar e entrar na necessidade barulhenta e delirante da noite...
De repente provo teu contorcionismo, sobreponho minha boca perto, quase dentro do teu ouvido e expurgo toda a infinidade de prazer num desabafo só... Tem nos teus olhos um pedido de desculpa por existir e um suplício de afeto por ter paz no inferno.
Teu corpo caído no meu corpo e minha alma sussurra: não vá embora nunca mais.
Tum, tum, tum...
(Teresa Coelho)
19/08/2010
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Luto
E vai ser sempre assim, a vida sai arrancando pedaços da gente de uma vez só...
Não há música, nem vento agora. Só escuto as batidas frenéticas da minha mão tentando achar um pouco de paz no meio dessa bagunça...
Teresa Coelho
09/08/2010
Não há música, nem vento agora. Só escuto as batidas frenéticas da minha mão tentando achar um pouco de paz no meio dessa bagunça...
Teresa Coelho
09/08/2010
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Incompleto
Cada pedaço cadavérico do que eu sinto, faz desse caminho um encanto por cegueira estraçalhado pelos pés e engolido pelo cansaço do meu ombro; o céu está aberto... Sangrando nuvens roxas e estrelas repartidas, enquanto a outra parte das estrelas inspira fugir dos nossos olhos. Elas não querem olhar como um último suspiro de alguém feliz antes de voltar prá lama. Nessa imundície eu choro com minhas fitas vermelhas caindo do cabelo, a roupa surrada, minhas mãos ressecadas, meu cheiro de corpo escondido, minha inconseqüência contínua, a desordem dos meus sentimentos, o impulso dos meus dias... Os meus quinze anos vazios de alguma coisa que ainda não desvendei, arranham meu coração e tapam minha boca o tempo todo em que eu estou comigo mesma. Esse pó que cai do céu enquanto escrevo, é o mofo das nuvens, é o sol em farelos de agulhas pequenas, feitas por raios luminosos que me penetram a consciência, deixando pesada, pesada, pesada... Meu rosto sereno se desmontou. E quanto vale a calma quando nosso corpo quer espírito?
Teresa Coelho
06/08/2010
Teresa Coelho
06/08/2010
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