O avesso do mundo seria o seu sorriso invertido para dentro
de mim. Poesia em silêncio faz cócegas. Coloque suas pernas viradas para o céu,
não deixe que as nuvens entrem no seu ouvido – é poeira mágica que embaça o
coração. O mundo pelo avesso é soltar balões e ir buscar no quintal de casa.
Parece tudo tão mais fácil quando eu corro sobre a poeira branca e encontro a tinta
embaixo dos pés, é como repintar um lugar onde não há casas, só rostos
esperando por um novo sorriso, e o mundo pelo avesso. Vice-versa.
Naquele quarto frio, teus lábios se fizeram de quina para
uma esquina cega. Explodi na tua boca, enquanto o tempo levava minha voz para
longe da tua casa de vento. Cerro a lembrança de tuas costas como um movimento
contínuo de olhos vedados à procura da luz branca, que une todos os músculos à
alma. Estado líquido de espírito, estado ausente - estar ausente. Sobras de um
coração sorrateiro e restos de luz, que o final da tarde interrompe para
projetar a ilusão do pôr do sol e dos beijos em farrapos. A Maria do quarto
frio tem a desordem de sua vida como uma porta que nunca precisou ser fechada, pois era livre por dentro.
Sofia enfeitava os cabelos sem saber o que amadurecia no
toque de suas mãos. Naquela manhã fria, ela sabia que sair do quarto
desmancharia seu penteado – alguém iria descobrir o quanto ela esforçava-se
para não demonstrar sua feiura. Pobre Sofia, tão feia, que não sabia sorrir. Quando
deitada na cama, o mundo parecia girar só para si, as cores surgiam dos olhos
como um choro num grito trépido. Cansada de ouvir tolices sobre o amor, o
perfume, a companhia e a lealdade, decidiu trancar-se num mundo cru – o cru e a
poesia suja agora eram sua verdade. ‘’Quem precisa de beleza quando se tem um
coração doente implorando por solidão?’’, era o que Sofia repetia olhando para
o teto, tentando devorar o choro, enquanto percebia-se, mais uma vez, sendo
devorada pela vida.
Desde o primeiro rompimento
Entre as peles secas
Na saliva, nas unhas e nos músculos
O desassossego de duas almas
Amando-se no desencontro do tempo
De encontro ao mesmo sexo
Destravam os gritos dos corpos
Fotografando o nu em fogos de artifício
Numa única cena de todos os demônios
Expurgados da carne
Como arrepios nascidos dos dedos...
A noite come os delírios
Que a minha poesia geme.