Eu desafino meu coração, as pálpebras e os pés afundados na areia de leite. Desafiei a liberdade chamando-a de minha, mas de quem sou, senão dela? A voz sai repicada e suada. Suei em cima dos seus olhos, eles flamejavam perto da minha boca, mas você tapava minha voz, e eu era sua de qualquer jeito, era o seu medo. Seu grito tremia dos cabelos às pernas, desaprendendo a ler os pássaros que agonizavam sem vôo em nossas mãos, tropeçando em nossos corpos o remorso de não ter culpa. A confusão me distrai, e eu me entrego sem cheiro, sem jeito, sem esperança... Mas não vou crescer nos seus contos, porque minha dor é apelativa e fraca. Vivo das esmolas atiradas por amor, dentro das marcas do vento e da grandeza da indecência, do estrago que meu líquido fez, estancado na sua língua. Nasci na rua, na rua do meu âmago me encontrei sem roupa e minha alma descansava longe de mim, ela dormia aí com você. Puderam dançar a noite toda, a ousadia não mofava mais os abraços, pintaram no chão pegadas feitas de devaneio, choraram com a garganta, despencaram sem asas de tanto esperar... E por uma única noite fizeram da liberdade um suspiro de adeus ao que nunca precisaram viver para saber que era isso o que sempre quiseram.
Teresa Coelho
18/11/2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Era ele, era ela
Tudo mundo acharia que seria imoral e que atingiria o ego em putrefação daqueles vermes vestidos de seres humanos. Mas o menino sabia da roupa que vestia, estava nu, e foi nu que saiu de casa para ir ver sua menina, aquela que era sua parte em forma de busca, imensidão, prosa, sutileza, sonhos, canções, abraço, magia, saudade... Olhou-se no espelho e tentou fazer algum contato com os olhos, queria saber se estariam vivos o suficiente para esquentar os dela, então viu que estavam tão vivos quanto o sorriso de sua menina. Era uma tarde chuvosa e quente. Não podia saber se o dia estava calmo ou não, o dia naquela tarde não estava no mundo, estava dentro dele, no mundo que ele queria dar a ela. Tentou sair correndo, mas lembrou-se das flores, daí, onde roubar flores numa cidade tão virgem de poesia? Por isso roubou as menores flores. A chuva atrasava seus passos, talvez por nem saber o que era andar na chuva ou nas nuvens, só queria vê-la.Avistou a porta, a porta era para ele naquele momento o último e ao mesmo tempo o primeiro degrau da escadaria. Segurava as flores tão fortemente que arrancou uma pétala, suava na chuva. Aproximou-se da porta e abriu-a... Lá estava a sua menina, com o sorriso que vivia, com os olhos que não precisavam ao menos abrir-se para aumentar os batimentos cardíacos dele. De repente o abraço. Não sabiam se corriam ou se ficavam se entreolhando pelo resto do dia, da vida. No entanto, ela veio com todo o corpo, toda a alma, respiração, desejo e se apertou contra o corpo dele... Ele podia sentir cada curva dela, tocava-a desenhando a ânsia de tomá-la para si. Os rostos finalmente se encontraram com fome, desordenadamente, um invadia a vida do outro e pediam licença com as línguas, as mãos e os olhos. Acharam enfim onde se fabricam as cores, os sons e os arrepios. Se encontraram, se traçaram, se tocaram, se tornaram o menino dela e a menina dele. Assim: com amor, mordidas, descanso e paz.
(Teresa Coelho)
24/10/2010
(Teresa Coelho)
24/10/2010
sábado, 25 de setembro de 2010
M
Conheço a carnosidade da tua alma, tua pele é um convite eterno de noites embriagadas e solavancos doloridos. É uma sede que me joga repicando as veias, vivendo de súplicas e delírios sondáveis, é uma sede que dura a vida toda. Eu faço poesia na tua saliva e declamo-a nos beijos, desconhecendo minhas preces, minha paz, minha calma, minha solidão. Apego-me às noites dormidas dentro dos teus ombros exaustos que me puxam numa cegueira viva e nítida, quase eterna. Balbuciaste teus apelos perdendo-se em meus braços, pernas, amasso... Tua voz celebra o orgasmo que eu tenho nos teus olhos, celebra o amor. Eu te amo.
(Teresa Coelho)
25/09/2010
(Teresa Coelho)
25/09/2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Uma Parte
-- Paralisada, disse ela para as mãos. – Se mexam! Se mexam! Implorou com certa conformidade no tom de voz. A menina dos cachos quebrados ficou sozinha na calçada da rua esburacada e escura. Guardava dentro dela um segredo que nem ela mesma lembrava se era verdade ou vontade de ser. Mas o que queria aquela criatura desnutrida de sonhos, parada numa rua desconhecida? Ela crescera lá. E crescera no interior de sua infância uma coisa crua e sem cor, sem muitas lembranças práticas... Não tinha culpa se não se lembrava das coisas significativas. Todavia, o que poderia ser mais significativo do que não saber pela primeira vez que não é preciso comparar flores e estrelas? Os sapos começavam a morrer na estrada, o vento gélido e úmido endurecia a saia e arrepiava de alguma forma mágica cada poro de suas coxas brancas e sem vida. Abaixou a cabeça por um momento e percebeu seus pés afundarem na areia que ia arranhando gradualmente suas feridas encobertas pelo tempo. No silêncio do desconhecido é que ela pudera reconhecer suas verdadeiras coisas: o ritmo da respiração; o gosto de sangue na língua; a testa quente; o relógio atrasado; o peso nos olhos; o cansaço dos ombros; o descaso às coisas complexas; a bagunça da sua história. Só que sem perceber suas mãos começaram a se mexer. Ela acordou para fora e berrou feito um animal ferido:
--Mãe, eu ainda tenho vida!
(Teresa Coelho)
09/09/2010
--Mãe, eu ainda tenho vida!
(Teresa Coelho)
09/09/2010
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Meio
Acordei meio parida, meio vivida, meio alguma coisa por completo. Deixei minhas roupas sujas no chão mofado do meu quarto, deu vontade de me deitar junto delas, de peneirar minha existência sem existir. Sobressaltei minha cegueira sobre as árvores e caí dura e rachada no chão, feito uma barata que não morre de tanto apanhar. Eu nasci pelo avesso da sensibilidade e está tudo tão bagunçado dentro de mim, que não consigo me mover nem puxar o lençol para me cobrir. Sabe quando a alma treme na palma da sua mão e não tem como você salvá-la sem deixar o corpo desfalecer junto? Ainda sinto minha pele gritando, ainda sinto o calor abrasivo das minhas mãos prendendo a verdade na boca, ainda sinto a fome dos aplausos exaustivos no meu estômago. A partir de agora é ter que ver o dia se acabando e misturar meu encanto, meu tormento, meus calos e minha eterna melancolia pendurados na minha espera melada de sonhos e saudade. O sol se foi.
(Teresa Coelho)
08/09/2010
(Teresa Coelho)
08/09/2010
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
sábado, 28 de agosto de 2010
Exposto
Parece que minha vida cresce para dentro, se enraizando na minha genética enlodada, primitiva, crua e ensangüentada. Minha visão ressecou por esses dias, foi tomando forma de ardência molhada, molhada da urina que escorreu incessantemente pelos meus olhos. Não é cedo para conhecer o que faz sentido. Ai! Parece que viver rasga um pouco nosso lado esquerdo... E continua rasgando. Minha cabeça gira, gira, gira, não para de girar enquanto você grita comigo, enquanto você descostura a paz remendada. Faz café fraco de manhã e bebe morno prá esquecer que tem o resto do dia para pensar no que eu me tornei... Mas é o que eu sempre fui. Porque procuro no mundo o seu abraço e acabo machucando meus braços de tanto me abraçar; é vazio. É frustrante. Cada pedaço dessa casa desmonta quando nossos olhares se cruzam. Dá medo tocar na minha essência? Dá nojo saber que essa verdade toda é minha própria vida? Falta força para chorar perto do seu abrigo, que já não me ampara de laços indeléveis e beijos quentes. Nossa relação virou adeus todas as manhãs. Eu estou me despedindo agora, minha dor não é mais virgem.
(Teresa Coelho)
(Teresa Coelho)
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