sexta-feira, 23 de julho de 2021

meu útero não sou eu

 

queria mãos atentas

sustentando /forte/

um balanço enferrujado

mãos sem medo

da queda.

 

filhos que nunca

me farão

a primeira

pergunta

filhos que nunca

tentarei encontrar:

dentro de armários,

embaixo da cama,

atrás da porta,

no meu reflexo.

 

minha filha nunca

me odiará

jamais terei a

resposta errada

nem a oração

dos viajantes

sem fim

 

na minha mochila,

nenhuma roupa ou fralda

de reserva

 

nem mesmo uma certidão amarelada

que te prove

— aquele outro jamais

voltará para mim.

 

sombra

 

uma redoma

mostrando o caminho

são duas voltas:

o susto

e

a redenção

 

mas se você chegar

muito cedo

ouvirá o princípio

das pedras a cantar do alto

como se fosse uma criança

elevada a uma altitude

em que se quebra

o gelo com os cílios

no silêncio mais

insuportável

de quem chega antes

 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Missa do Galo

Nada alcançava o silêncio do sino. O cheiro que vinha da cozinha denunciava a data fatídica da solidão de Jesus, nu e nascido. Conceição já não pensava mais na figura fantasmagórica do marido, sentia o corpo purificado por não mais precisar dividir a pele com um estranho. No celular, as notificações da família distante, "feliz natal!", acompanhadas de anjinhos melancólicos de calendário de cozinha. D. Inácia, a mãe de Conceição, respondia todas as mensagens com muita paciência e medo; a boca ressecada, os olhos ressecados, o padre, do outro lado da avenida, ressacado. Conceição fitava o espelho memorizando os últimos minutos de sobriedade. O marido não aparecera, mas D. Inácia franzia a testa como quem fala "não vá criar confusão por isso, são coisas de homem, minha filha". As luzes empalideciam a rua com o pisca-pisca das casas enquanto os fiéis marchavam para a igreja. Eram poucos, alguns desacreditados; outros velhos demais para pedir perdão. A bateria do celular de D. Inácia finalmente descarregara e, num bocejo libertador, a mulher descobrira que poderia ir dormir. Tirou a roupa e achou-se ridícula. Adormecera.


Conceição já estava na metade do vinho quando recebeu um match de um rapaz aparentemente confuso. Talvez 17 anos, talvez 20 anos. Nunca saberemos. Dizia ser um assíduo leitor de Machado de Assis, mas não aparentou pedantismo, só imaturidade. Ela sentiu que o corpo de 30 anos ainda poderia se teletransportar para o abismo do rapaz. Gostava do vinho quente. Conversaram sobre mapa astral, livros, política e natal. Conceição ansiava que o rapaz adiantasse o propósito daquele encontro, uma vez que ela não pretendia revelar nada além do que a encenação dos seios duros e das pernas inquietas. Sabiam que algo estava a um passo de transpassar a tela do celular. Um gemido, uma foto, um pedido de socorro. Ele queria mostrar profundidade, mas Conceição já estava no fundo do poço, e impacientou-se quando sentiu a garrafa leve e a cama flutuante.Voltou a vestir a roupa e achou-se ridícula. Bloqueou o rapaz e adormecera. Do outro lado da avenida, alguém tentava acreditar em deus. 

(Teresa Coelho)
14/09/2016

OBS.: Releitura do conto de Machado de Assis de mesmo título

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Primeira volta à lua

Uma criança de 12 anos me ensinou a chorar por dentro. Me vi máquina reprodutora de regressos incompreensíveis - jogo de amarelinha, espinho no pé, suor na língua, sorvete de cocaína. Pensei que o absurdo fosse pagar 7,50 num café menor que o meu dedo do meio. Vou abandonar a universidade daqui a alguns minutos. Finjo caminhar na prancha vedada do ego - monstruosidade exposta na rua da primeira mão que me disse adeus. Eu sei que elas me viram beijar o espelho do provador de roupas. Me sento nua na frente do armário e espero meus amigos voltarem. Não voltarão. Uma criança de 12 anos descobre o futuro nas lentes míopes dos pais. Sussurram que a morte é uma questão de sorte - conhecer alguém duas vezes. Sufocadas pelo travesseiro universal da mudez, nunca mais saberão que estavam certas. Já não posso mais sustentar esses livros. Elas desviam o olhar. Elas sabem o que tem na última página. 

Teresa Coelho

2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Oração

Não sei exatamente quando me dei conta da posição exata dos móveis. Há dois anos e meio, o apartamento era um vácuo branco, cheio de remendos e baratas assassinadas -- e uma história de mais de 30 anos, com duas crianças mortas e infiltração no banheiro. Todos os sonhos que eu não contara estariam atravessando o corredor e fugindo pela varanda, a qual não limpo há duas semanas. Os sonhos são os dias: desforrar a cama, comer sucrilhos com banana e mel, assistir série, odiar o corpo, chegar atrasada, não conversar, esperar o ônibus, não ser notada, não morrer até cruzar a avenida, tirar a roupa e ter o direito de não querer mudar. Essas são as coisas que não sabemos que existem, porque não podemos nomeá-las, porque não significam. Não evitamos o apodrecimento das frutas, elas fadam o destino como quem marcha para ser executado. Frutas não se apaixonam. Frutas não dizem adeus. Somos biologicamente irreversíveis. Tu não sabes qual é parte mais solitária da vida -- o quadro esquizofrênico da tua avó, o pote vazio de manteiga, os presentes da tua ex, a música do vizinho, a televisão desligada, a mensagem que quebrou teu coração, a comida que sobra, o lençol sujo, o copo esquecido, o momento de girar a chave duas vezes e enfrentar o escuro. Há os dias em que tua família vem te visitar, e tu não precisas encarar as coisas sem nome. Tu vais sentar silenciosamente, pedir a garrafa de café à tua mãe, o queijo à tua avó e pão ao teu padrasto. Em câmera lenta o amor nas coisas insignificantes, mas não temos muita certeza, até chegar o domingo -- e as churrascarias lotadas e as crianças gritando e as esposas infelizes e os maridos comendo a colega de trabalho e aceitação de que tudo é como tem que ser. Deus só existiu quando adormeci no pai-nosso. Ela só existia subindo as escadas e me deixando à beira do precipício. Deveríamos nos despedir todos os dias. Deveríamos saber a hora exata de arrastar os móveis. Deveríamos ser finitos, de uma só vez. 

(Teresa Coelho)

17/06/2015

domingo, 14 de dezembro de 2014

Espero tu não fiques sabendo das coisas que não aconteceram

tu consegues ver o asfalto sugando as patas daquele gato à procura da bola em descontínuos gritos & pulos mágicos? tento não me concentrar no destino se desprendendo do calor gravitacional dos teus glúteos e dos espaços reservados ao caminho por onde iria escorrer teu suor. mas não deu tempo. eu consegui ver por duas noites teu ônibus depressa te levando embora da multidão que confortava meus medos por trás da tua blusa repetida. percebes as luzes artificiais de dezembro? acho que eu só percebi hoje. as portas que não batemos palma mas arrombamos somente com a vontade de entrar. tu te importas de esperar à janela? às vezes tu somes por quase uma vida e voltas a aparecer no espelho do banheiro, covardemente eu olho de volta. refaço os retalhos da minha oração enquanto santos católicos dançam um tango eletrônico com vênus no cabaré da cidade e esse amém no meu peito são 5 cervejas e meu estômago vazio. está tudo sob controle. deixa eu te telefonar e te contar que minha família foi um porta-retrato incendiado desde a última vez que ouvi "summer 78" e imaginei que todos estivessem me esperando em casa. nunca houve casa. a garganta dos helicópteros tritura o pôr do sol na última tentativa de chegar a tempo num encontro que não vai acontecer. nada vai acontecer. não adianta correr. nada vai acontecer. não adianta correr. nada vai acontecer. no céu tu crescendo
tu sorrindo
tu voltando
tu de olhos abertos
 tu fugindo do céu
de peito escancarado
dentro de redemoinhos fluorescentes. tento não te confessar mas todas as camas são púlpitos sem esperança. acho que meu ônibus chegou e não me concentrei o suficiente na vida ao meu redor. eu bem que tentei te avisar antes que tu percebeste que nada aconteceria. tentei segurar tua orelha na minha boca. tantas vezes. tantas vezes
eu deveria ter corrido. 

Teresa Coelho

12/12/2014

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Todas as pontes sem cadeado

talvez eu não saiba mais o que vestir quando tu voltar. dois ombros cansados das nuvens ciganas que não conseguem mais adivinhar onde dói a chuva na gente. atravessei duas pontes molhadas de peixes apodrecidos e zumbis sem dentes só para pensar mais uma vez e mais outra vez na última imagem petrificada das tuas costas. em nome do meu adeus precipitado tive que atravessar tua imagem em silêncio como se tu fosse sair de todas as portas daquela avenida. teu rosto ainda está na almofada comprada na última liquidação do ano passado e através do box quebrado do banheiro a água vai desenhando teu corpo com frio e a xícara sempre fica com a colher que tu não lava. o amor ele só vive nas cartas e nos pedidos de desculpa mas agora mesmo eu não consigo cruzar os braços no estômago sem pensar que isso também é amor. tua mão abrindo a grade da tua casa e alisando o cachorro e me ensinando a matar baratas. por que tu foi grudando desse jeito nas coisas mais invisíveis e por que tudo parece querer pular da janela do ônibus como se as luzes das casas fossem tapetes mágicos. talvez eu não saiba mais o que vestir quando tu não voltar. 

Teresa Coelho


11/10/2014