domingo, 3 de março de 2013

Eco


Depois que desci do ônibus, havia só uma passarela escura, um hospital velho e alguns carros correndo apressados às suas casas, para enganar o cansaço. Fui o trecho do caminho pensando se eu teria esquecido as chaves de casa em cima da mesa do bar ou se eu poderia ter ficado mais tempo no ônibus – como se alguém atormentasse o céu tentando limpar as nuvens carregadas. Quando entrei em casa, senti meu corpo socorrendo minha alma, enquanto você ecoava na ausência onde o resto do café da sua última xícara fazia o vento congelar minha garganta num nó agudo, da sandália no canto da sala, como se os seus pés ainda estivessem lá, da toalha pendurada em cima da minha, quando ainda era o seu corpo que se pendurava à minha cintura. Confundi o quarto com o seu cheiro de erva doce amadeirada e a cama era uma veia que pulsava fora do corpo. A noite transfigura o rosto numa parte solta à realidade. O travesseiro parecia ressoar sua risada sem roupa – sua boca sorri sem roupa. Você ecoa por toda a casa, na chuva, lá fora. Se eu não tivesse descido do ônibus nem lembrado das chaves, eu não teria conhecido você, aqui, dentro de mim.

(Teresa Coelho)
04/03/2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do que já não é mais azul


Suporto mais perto de mim o que não
Pressente com fluidez o espírito saindo
Pela janela gradeada do oitavo andar
Onde a luz é um feixe na parede desbotada
De uma metáfora suja sobre o que não significa mais
Estar em casa, ter um lar ou fingir que escreveu
A primeira carta de amor da sua vida quando
Já não soube mais voltar para si mesmo

(Teresa Coelho)
01/03/2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ilusão que dança


As cortinas movem as silhuetas dos fantasmas e da luz,
Dançam de luto vermelho um tango para a noite
Dos bares outrora, das pernas que se entrelaçam
Na madrugada perene, no chão úmido dos solados
Quase mastigados pelo suor que escorre
Do batom desbotado das bocas fulminantes.
Quando o mofo nas cortinas limita-se
A um fluorescente entardecer
O vento para de fazer poesia
E as cortinas cessam
Em panos velhos.

(Teresa Coelho)
25/02/2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quadro


O rio brando não existe na tela
Que martela na minha cabeça
A ponto de mergulhar
No chão de fumaça
A concreta forma sem fôrma
Da aquarela que se derrete
Entre meus dedos e vísceras
Os únicos dias que pude
Ver com tamanha exatidão
A primeira pintura parida
De meus dois olhos negros
Foi uma dor surrealista
Tão feita a esmo
Feito redemoinho
Que não cessa no peito
Do vento branco
Fuligem

(Teresa Coelho)
17/02/2013

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Desordem


O céu é azul por engano
Quando a luz invade o tempo
Meus músculos pesam no chão
Porque flutuo sobre mim
E perco a dimensão da realidade
Que me sustenta
Os dias refeitos num contínuo
Suor da pele que transpiram
Cada tentativa vã
De ser alguém melhor
Mas não esvazia do meu
Peito inchado o fracasso de ter
Me tornado uma amadora
De minha vida
Por coincidência
Ou por engano

(Teresa Coelho)
23/01/2013

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Domingo à noite chovia


Refaço a cama com esses panos empoeirados, e depois de mais um dia com a mesma dor nos ombros e o peso nos olhos, descubro que arrumo a cama para a solidão. Por dentro, eu durmo no chão, na parte dura e real da vida. Eu cubro a solidão, vigio seu eterno sono, amando-a num infinito de muitos ''eus'', que mesmo sendo meus não me pertencem mais. Sou escrava da minha melancolia, sou escrava de mim porque nasci e não pude ser diferente do resto do mundo e das pessoas más. Envelhecer me custará rever toda a minha cegueira e continuar cega. No mais, alguém terá que arrumar a cama, alguém terá de viver, e estou em pé esperando pelo menos que, enquanto os lençóis ainda estiverem bagunçados, é porque a vida também terá algum sentido em si, assim como os panos desfeitos de uma cama sem dono. 

(Teresa Coelho)
10/01/2013

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Vida imaginária


Tiro o lençol sujo e deixo a cama nua
À espera dela, que nunca se demora
Para deitar-se em silêncio no colchão crespo
No entanto, eu sinto o tempo
Sumir como um suspiro embaixo d’água
Mesmo com ela por perto
Arrumo a casa, preparo café
E penduro uma toalha limpa
Se a casa desmoronar qualquer noite dessas
O perfume que esconde a dor das flores
Finalmente terá seu descanso
Longe dos livros e da poesia desmontada
 - Ainda não chegou?
Ah, solidão, a sensação é de que você
Sempre está perto de chegar
Mas é sempre quase...
Melhor voltar ao lençol sujo
É ilusão esse silêncio ir embora
Basta...  

(Teresa Coelho)
09/01/2013