sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Anoitecer

Onde está o sepulcro do amor? Eu cavei a noite toda procurando pelo ar que fica entalado na minha dor. Não quer sair, não posso voar além do que você quer que eu seja. Não suporto mais levar minhas lástimas para sua vida nem levantar da vida algo que ela não quer me dá. Meu corpo permanece ínvio, meu caminho não é mais nosso, e o céu ficou incinerado depois de eu ter olhado. Doei os meus sonhos dentro de uma caixa furada. Renuncio a partir desta noite a emoção, mas é só por hoje. Meu abraço corre desprotegido, meu beijo desliza constrangido, meus poros pararam de respirar. Onde está a rima, o ritmo e a fantasia de viver? Naufraguei em seus olhos o tempo, a paz e a bagunça do silêncio, do brilho, do amargo... Meus aplausos esgotaram tanto quanto o por do sol que não vejo mais ao seu lado. Mas não é importante sair à procura da nossa cura, afinal, isso foi só um desabafo do anoitecer com estrelas, ventos, sorrisos soltos e sua ausência.

Teresa Coelho

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Liberdade

Eu desafino meu coração, as pálpebras e os pés afundados na areia de leite. Desafiei a liberdade chamando-a de minha, mas de quem sou, senão dela? A voz sai repicada e suada. Suei em cima dos seus olhos, eles flamejavam perto da minha boca, mas você tapava minha voz, e eu era sua de qualquer jeito, era o seu medo. Seu grito tremia dos cabelos às pernas, desaprendendo a ler os pássaros que agonizavam sem vôo em nossas mãos, tropeçando em nossos corpos o remorso de não ter culpa. A confusão me distrai, e eu me entrego sem cheiro, sem jeito, sem esperança... Mas não vou crescer nos seus contos, porque minha dor é apelativa e fraca. Vivo das esmolas atiradas por amor, dentro das marcas do vento e da grandeza da indecência, do estrago que meu líquido fez, estancado na sua língua. Nasci na rua, na rua do meu âmago me encontrei sem roupa e minha alma descansava longe de mim, ela dormia aí com você. Puderam dançar a noite toda, a ousadia não mofava mais os abraços, pintaram no chão pegadas feitas de devaneio, choraram com a garganta, despencaram sem asas de tanto esperar... E por uma única noite fizeram da liberdade um suspiro de adeus ao que nunca precisaram viver para saber que era isso o que sempre quiseram.

Teresa Coelho
18/11/2010

domingo, 24 de outubro de 2010

Era ele, era ela

Tudo mundo acharia que seria imoral e que atingiria o ego em putrefação daqueles vermes vestidos de seres humanos. Mas o menino sabia da roupa que vestia, estava nu, e foi nu que saiu de casa para ir ver sua menina, aquela que era sua parte em forma de busca, imensidão, prosa, sutileza, sonhos, canções, abraço, magia, saudade... Olhou-se no espelho e tentou fazer algum contato com os olhos, queria saber se estariam vivos o suficiente para esquentar os dela, então viu que estavam tão vivos quanto o sorriso de sua menina. Era uma tarde chuvosa e quente. Não podia saber se o dia estava calmo ou não, o dia naquela tarde não estava no mundo, estava dentro dele, no mundo que ele queria dar a ela. Tentou sair correndo, mas lembrou-se das flores, daí, onde roubar flores numa cidade tão virgem de poesia? Por isso roubou as menores flores. A chuva atrasava seus passos, talvez por nem saber o que era andar na chuva ou nas nuvens, só queria vê-la.Avistou a porta, a porta era para ele naquele momento o último e ao mesmo tempo o primeiro degrau da escadaria. Segurava as flores tão fortemente que arrancou uma pétala, suava na chuva. Aproximou-se da porta e abriu-a... Lá estava a sua menina, com o sorriso que vivia, com os olhos que não precisavam ao menos abrir-se para aumentar os batimentos cardíacos dele. De repente o abraço. Não sabiam se corriam ou se ficavam se entreolhando pelo resto do dia, da vida. No entanto, ela veio com todo o corpo, toda a alma, respiração, desejo e se apertou contra o corpo dele... Ele podia sentir cada curva dela, tocava-a desenhando a ânsia de tomá-la para si. Os rostos finalmente se encontraram com fome, desordenadamente, um invadia a vida do outro e pediam licença com as línguas, as mãos e os olhos. Acharam enfim onde se fabricam as cores, os sons e os arrepios. Se encontraram, se traçaram, se tocaram, se tornaram o menino dela e a menina dele. Assim: com amor, mordidas, descanso e paz.

(Teresa Coelho)
24/10/2010

sábado, 25 de setembro de 2010

M

Conheço a carnosidade da tua alma, tua pele é um convite eterno de noites embriagadas e solavancos doloridos. É uma sede que me joga repicando as veias, vivendo de súplicas e delírios sondáveis, é uma sede que dura a vida toda. Eu faço poesia na tua saliva e declamo-a nos beijos, desconhecendo minhas preces, minha paz, minha calma, minha solidão. Apego-me às noites dormidas dentro dos teus ombros exaustos que me puxam numa cegueira viva e nítida, quase eterna. Balbuciaste teus apelos perdendo-se em meus braços, pernas, amasso... Tua voz celebra o orgasmo que eu tenho nos teus olhos, celebra o amor. Eu te amo.

(Teresa Coelho)
25/09/2010

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Uma Parte

-- Paralisada, disse ela para as mãos. – Se mexam! Se mexam! Implorou com certa conformidade no tom de voz. A menina dos cachos quebrados ficou sozinha na calçada da rua esburacada e escura. Guardava dentro dela um segredo que nem ela mesma lembrava se era verdade ou vontade de ser. Mas o que queria aquela criatura desnutrida de sonhos, parada numa rua desconhecida? Ela crescera lá. E crescera no interior de sua infância uma coisa crua e sem cor, sem muitas lembranças práticas... Não tinha culpa se não se lembrava das coisas significativas. Todavia, o que poderia ser mais significativo do que não saber pela primeira vez que não é preciso comparar flores e estrelas? Os sapos começavam a morrer na estrada, o vento gélido e úmido endurecia a saia e arrepiava de alguma forma mágica cada poro de suas coxas brancas e sem vida. Abaixou a cabeça por um momento e percebeu seus pés afundarem na areia que ia arranhando gradualmente suas feridas encobertas pelo tempo. No silêncio do desconhecido é que ela pudera reconhecer suas verdadeiras coisas: o ritmo da respiração; o gosto de sangue na língua; a testa quente; o relógio atrasado; o peso nos olhos; o cansaço dos ombros; o descaso às coisas complexas; a bagunça da sua história. Só que sem perceber suas mãos começaram a se mexer. Ela acordou para fora e berrou feito um animal ferido:
--Mãe, eu ainda tenho vida!

(Teresa Coelho)
09/09/2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Meio

Acordei meio parida, meio vivida, meio alguma coisa por completo. Deixei minhas roupas sujas no chão mofado do meu quarto, deu vontade de me deitar junto delas, de peneirar minha existência sem existir. Sobressaltei minha cegueira sobre as árvores e caí dura e rachada no chão, feito uma barata que não morre de tanto apanhar. Eu nasci pelo avesso da sensibilidade e está tudo tão bagunçado dentro de mim, que não consigo me mover nem puxar o lençol para me cobrir. Sabe quando a alma treme na palma da sua mão e não tem como você salvá-la sem deixar o corpo desfalecer junto? Ainda sinto minha pele gritando, ainda sinto o calor abrasivo das minhas mãos prendendo a verdade na boca, ainda sinto a fome dos aplausos exaustivos no meu estômago. A partir de agora é ter que ver o dia se acabando e misturar meu encanto, meu tormento, meus calos e minha eterna melancolia pendurados na minha espera melada de sonhos e saudade. O sol se foi.

(Teresa Coelho)
08/09/2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Eu posso abastecer silêncio, mas não me deixe ser abastecida por ele.

(Teresa Coelho)