domingo, 11 de abril de 2010

Farsa

Sou composta internamente por feridas expostas aos meus tormentos
Elas têm o cheiro de cada lembrança que se perdeu na minha memória
Mutilam meu corpo e a minha vontade de não saber o porquê do gosto do gozo
Que sai de um jato através dos meus olhos e das minhas proezas espirituais
Eu nunca realizei um estado existencial de amar involuntariamente
O meu involuntário é não saber quando se ama
Eu me tornei filha de uma vida inconstante
Por isso as feridas que têm cor de metamorfose
Mudam de dor...
Sou conseqüência impura e sutil do objeto atravessado entre mim e o meu mundo secreto
Virei a minha cicatriz interna e a minha dor externa.

(Teresa Coelho)
11/04/2010

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fuga

Tudo quebrado...
O líquido que compõe a vida espalhou-se pelo tapete branco...
Por um instante pude esquecer o que restou do nosso conto misterioso...
Mas o que resta é o que nos faz bem ou é tudo o que não suportamos lembrar?
Sua beleza me fez chorar...
Estou devolvendo você de mim
Agarrando os extremos do que você nunca quis ao meu lado...
Levando em consideração a sinceridade constante da sua inconstância...
Minha verdade não se faz de fugas delicadas...
Necessito sufocar-me do seu desprezo...
Você é quase como quando um vinho tinto cai numa roupa branca...
Sua alma é carnal...
Não existe.
Nossa relação não passa de acordes desafinados
Poesias rasgadas no meio...
No meio que paramos não há começo, nem fim.
Foi isso. Um meio.
Cansei de me entregar a tudo que está em mim
Você deixou um eterno cansaço de mim mesma...
E fugiu...
(Teresa Coelho)
31/03/2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Breve

Eu gosto da palavra nua. Escarrada com desprezo...
Prefiro que me explorem os escárnios que a razão...
E que me arranquem a pele com os dentes do que com mãos delicadas...
Perdi meu sangue enquanto tentava criar minha alma.

(Teresa Coelho)
19/03/2010

segunda-feira, 8 de março de 2010

Declaração Primitiva

E quando não houver mais o que pensar
Nem mais o que se dizer sobre o que não vivemos...
Irei viver sem pensar...
Quando não houver mais o que sonhar
Nem mais como me perder dentro de você...
Irei sonhar que posso me perder mais uma vez...
E mais uma, mais uma... Sempre.
E quando não houver mais a sua voz
Ficarei muda e surda, para nunca mais esquecê-la...
Quando não existir mais alguém que lhe faça feliz,
Quando não tiver mais ninguém que possa lhe encontrar...
Eu irei lhe encontrar e fazer feliz...
Porque diante de todos esses delírios há amor...
Há amor nessa declaração primitiva!
Eu dei em pedaços tudo o que não podia dar por inteiro, mas dei...
Você foi a particularidade mais profunda que eu pude manter em segredo...
Meu encanto e desalento...
Você foi tudo o que eu tive e não possuí...
E quando não houver mais o carnal...
Irei lhe manter, eternamente, na carne da minha alma...
Porque fosse minha vida, enquanto eu fui um passa tempo dos teus contos perdidos...
(Teresa Coelho)
08/03/2010

quinta-feira, 4 de março de 2010

De dentro

Gosto de sentir o barulho do carro e de ver como as pessoas preferem adormecer...
Não me perguntem quando eu costumo deixar o sol falando sozinho das coisas que ele mesmo não sabe iluminar...
Você bebeu tudo o que tinha no meu corpo com uma acidez que brilhava na boca, me asfixiando de loucura...
Foi um terrorismo de suspiros...
Dessas mentiras ensaiadas na prévia de um amor, que nem mesmo pertencia a essa estória...
Você nunca existiu. Você veio de dentro, de dentro de mim...
Eu costumava lhe vomitar quando me sentia sozinha
Só que a minha alma é o nosso vazio que se mistura aos pedaços juntados da sua inexistência...
Imaginação tem gosto de coisa esquecida...
Imaginar é como comer um doce que não existe mais ou que nunca chegou a comer.
À medida que eu entorpeço minhas mãos na leveza das suas, uma vez apenas, explode na garganta uma fala entupida e cheia de falhas da uma vida disfarçada...
Não importa. Ninguém percebe quando tenho em mim exacerbadamente a vontade de ser.
E sendo, a verdade é que a sua face não se completa com o sol que se esquece de iluminar o começo da imensidão de cada palavra perdida em imaginações desprezadas e fracassadas...
E se... E se... E se eu realmente roubasse todos os delírios que deixamos cair por causa do barulho que vinha da nossa estrada, será que as pessoas continuariam adormecidas?
(Teresa Coelho)
04/03/2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Nascer

Eu nasci com um gosto estranho de indelicadeza mútua. Quando meus olhos se abriram pela primeira vez, lembrei que tinha nascido e que não havia outro jeito, se não existir mesmo. Parir é como uma mágica, de repente, sai da abertura do pecado, uma vida. Você já nasce chorando, enquanto os outros riem...
Depois de algum tempo aprendi a andar, mas eu não gostava de ficar equilibrada em mim mesma, eu queria voar! Voar seria mais uma sensação de sonho, de fuga e prazer. Correr cansa. Comecei a expulsar de dentro de mim alguns sons, algumas vontades, quis ter a minha própria linguagem; ainda lembro-me do ataque de gritos e lágrimas, de quando me fizeram máquina da de suas comodidades. Foi um milagre...
Só que agora há algo me devorando, arduamente me obrigando a expelir tudo o que me estremece e me expulsa do que é normal. A gente se entrega involuntariamente, despenca de súplicas escondidas durante a noite, rasteja em silêncio para não incomodar, prova com os olhos a única saliva que lhe atrai... Que dor tem a morte quando não se tem vida? A cada abandono, de cada noite, você deixou o romântico que existia em mim, completamente triturado e assiduamente exposto ao seu desprezo. Você tem sido especial demais para se tornar concreta... E eu, concreta demais para me tornar especial para você.
Se um dia eu descobrir que a alma sabe voar e tem a sua própria linguagem, eu deixarei de viver para nascer de novo e de novo e de novo... Até que alguém canse de me parir.
(Teresa Coelho)
27/02/2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um conto à Chuva

Sim, chovia muito. A água que caía não simplesmente molhava como apressava calculadamente os passos daquela menina que se vestia de púrpura e recolhia as folhas secas e sujas que a terra esquecera a beleza. Era um dia que se confundira com a noite. Houve algo que a fizera parar naquele instante, como se uma vida inteira tivesse que parar, e parou. Sentou-se num banco molhado, de um branco sujo; sentiu o gelo penetrar suas coxas. Sentiu frio e solidão. Na verdade era o que ela era fria e sozinha. Abaixou a cabeça por um instante, observou cada detalhe do seu tênis desgastado, perdido nos detalhes, via cada gota de água que escorria do seu cabelo indo de encontro com as mãos apoiadas no joelho. Foi levantando o pescoço lentamente, de acordo com o seu olhar que percorria a praça vazia, o lugar estava apenas com o seu modo de observar. Tudo aquilo que a cercava, a fez chorar, como se não bastasse nada do que ela fora soltou um grito, mas um grito delicado que ao mesmo tempo fora um desabafo, uma súplica, um pedido de socorro ou apenas nada. Após o grito sentiu o seu corpo desfalecer-se, levantou a cabeça para o céu, já com os olhos fechados, começou a arranhar suavemente o pescoço até chegar aos seios. A chuva não parava. Ela descobrira que ainda estava a existir dentro dela alguma coisa que ninguém tinha, porque ninguém poderia descobrir. Talvez quando chegasse em casa, iria esquecer de tudo o que descobrira numa única tarde. Naquela tarde, naquele banco, ela poderia ter morrido de amor, ter se matado com o vento, não iria importar, era apenas a chuva, o vazio e o que há pouco tempo descobrira dentro de si. Mas a comodidade de ser humano é sempre cruel com ele mesmo. Levantou-se num suspiro, seu ombro caiu, seu choro já era ofegante. Algo acontecera com aquela menina, já não era mais uma menina. A chuva a fez mulher. Deixara cair de sua mão trêmula as folhas secas que pertenciam a beleza esquecida, tirou o tênis, necessitava sentir a frieza que tanto esquentou a sua alma. Caminhava sem compasso, quase não piscava os olhos, quase não pertencia a esse mundo. A água batia queimando o seu pescoço arranhado, o sangue lhe dava prazer. O mundo deixou de ser o seu abrigo, era preciso inventar uma nova espécie de gente. Então se recriou. Mas era uma recriação passageira, ela só precisara mudar enquanto estivesse na chuva, enquanto seu corpo levitava o gozo que a alma escondia por travessura. Só que a chuva um dia teve que parar e ela voltar para casa. Em frente à casa só se podia ver a roupa molhada, a dúvida de abrir a porta ou a vontade de fugir de vez. No entanto, seria demais para ela descobrir aquele desfecho.

(Teresa Coelho)22/ 02/ 2010