quarta-feira, 14 de maio de 2014

Bioluminescência

Solta a minha mão
Condenada
A acenar
Para os ambulantes
Que não me oferecem
Nada em troca
Pelos vaga-lumes
Que extraviam a luz
Para uma invisibilidade
Quase (des)humana
E enlouquecem
Numa transgressão cega
De vida

Teresa Coelho
14/05/2014



domingo, 6 de abril de 2014

O 3º ciclo de Saturno

Já não sei mais
Em que ciclo de Saturno
Meus poros vão fechar
Se eu seguir o tempo que
Foi perdido
Na pressa do sol
Cor púrpura de uma flor
Morta
Meu perdão será o trilho
De que Deus?
Quando bastava a verdade
Para esclarecer tudo
Escolhi abandonar
Minha liberdade
- Não posso existir.

(Teresa Coelho e Marcelo Júlio)

28/03/2014

domingo, 1 de dezembro de 2013

Quatorze de outubro de dois mil e doze - o amor é brega

Derrama leite em pó pela casa
Faz café na garrafa suja
E pensa que eu não sei
Quando entra no quarto
Com os pés descalços
E joga o sutiã na cadeira
Enquanto eu fico só
De calcinha bege
Porque o amor não
Liga para as cores
Ele desnuda

Teresa Coelho

01/12/2013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bueiro do meu corpo

As luzes dessa água
Que se afogam nas pontes
Das fontes imundas que
Invadem as calçadas
Onde o teatro ao ar livre
É só suspiro de loucos
E olhos de náilon
Sugam minhas pálpebras
Até derreterem no sol de cera

Enquanto do outro lado
Do meu coração desabrigado
Sonhos e abraços efêmeros
São pinturas silenciosas
À margem da minha
Esquizofrenia
Ontem eu fiz o mesmo caminho
E a minha casa parece
Ter ficado submersa
Em alguma estação
De ônibus

Teresa Coelho

12/09/2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Hiato

Onde deixei cair o par de flores
que sustentava os jarros de olhos
daquela língua que me fitava
como se fosse espatifar no céu
antes de me acordar?

(Teresa Coelho)
05/09/2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Espasmos

Tua mão
madeira oca
bate na minha porta
já são horas sem roupas
de cabeça para baixo
a via láctea nua

São dois montes
as nascentes
púrpura rosa
cor sem pele
o centro do universo
faz das convulsões
as tuas pernas

Em cima
dos meus ombros
quanto vai durar
uma noite entre
o infinito e o mundo?
segundos...

(Teresa Coelho)

31/07/2013

domingo, 21 de julho de 2013

As asas que calaram

Há um pássaro sussurrando no meu ouvido “se o céu fosse mais perto, eu não conseguiria voar”. A corrente de ar que escapa das asas disformes me arranha em contínuos calafrios. Sinto cada pena dedilhar as minhas costas feito a ponta de uma língua trêmula - um demônio que copula sensações sobre cheiros violentos. Asas que lambem meu corpo como se estivessem prontas para cavar o mundo embaixo da minha cova. De repente, são infinitos pássaros voando de lá para cá, disputando o branco das paredes com o engano das suas cores. Minhas cores. O vazio é um voo noturno. Os sussurros não param, percorrem pelo pescoço, puxam pelo cabelo e batem... batem... simulam. O céu é um teatro distante, onde pássaros não podem ser borboletas e a solidão é um corpo que nega suas asas.

(Teresa Coelho)

22/07/2013