De tarde chovia sem trégua, a goteira no rosto dela era o único som fora o da chuva. Foram-se os pássaros, os cachorros, os carros na rua, tudo estava quieto, morto... confuso. Alice abriu os olhos, mas preferiu afogar-se de pingo em pingo a levantar e lembrar que acordou no dia errado. No dia errado pro amor. Levantou-se nua, frio nas pernas e calafrios, ainda um pouco embriagada, não quis ver o dia, não quis se olhar no espelho nem sair do quarto. Sentou no chão morto e chorou, não, não chorava, soluçava sem compasso, sem cautela, com dor. Não conseguia fingir, mas também não podia fugir daquele dia. Achou o telefone e com a visão embaçada tentou, até lembrar-se dos números:
- Por que você também não acordou com a chuva?
- Porque não quis.
- Hoje eu preciso te ver.
- Hoje não dá...
- Nunca tem tempo pra mim.
- Você nunca me dá espaço para eu sentir vontade de ter tempo prá você.
- Eu te sufoco?
- O tempo todo.
- Quero te abraçar, to com frio.
- Já disse que não quero mais falar sobre isso.
- Eu só disse que queria te abraçar...
- Você sempre quer mais. Jamais eu iria te saciar apenas com um abraço.
- É porque eu nunca tive o suficiente...
- E o que mais pode ser suficiente?
- Você seria suficiente. Você de verdade na minha vida, para me abraçar.
- Já disse que não quero falar sobre isso!
- Precisava te dizer tantas coisas hoje...
- Você nunca fala. Cansei de esperar você querer falar, esse silêncio nos desgastou muito...
- Um dia você prometeu que ia cuidar de mim e me ensinar sobre a vida.
- As coisas mudam. Nós mudamos. Acabou, acabou!
- Dentro de quem acabou? Quando alguma coisa pode acabar? Fale-me, porque eu não consigo sentir.
- Você acabou dentro de mim. Eu não te sinto mais quando ouço sua voz.
- Eu te amo.
- Eu vou desligar, preciso ir...
- Feliz aniversário.
- Adeus.
Alice não conseguia desligar. Ficou escutando a alma queimar junto com o barulho da linha do telefone. Olhou pro seu corpo nu e pálido, abandonado e feio como a alma que queimava. Sofria porque nunca soube dar pouco, nunca soube pensar mais nela, porque nunca quis amadurecer. ‘’Até quando, até quando?’’ perguntava olhando pro telefone caído e sua vida jogada fora.
Teresa Coelho
20/02/2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Reflexo
"Está ficando muito triste isso AQUI.
Não queria que minha semelhança fosse apenas espelho...
Mas parece que todos só me enxergam através dele...
Mesmo comigo, esse reflexo não tem vida...
Fico como uma imagem...
que se esvai, levando-me...”
(Teresa Coelho)
2009
Não queria que minha semelhança fosse apenas espelho...
Mas parece que todos só me enxergam através dele...
Mesmo comigo, esse reflexo não tem vida...
Fico como uma imagem...
que se esvai, levando-me...”
(Teresa Coelho)
2009
Além
"Quem somos nós no abreviar do futuro que não chega?
Nossa morte, nossa dor...
Parecem ser as mesmas!
Deixe-me entardecer na pólvora...
Já não sinto vontade de correr
Só queria pular...
Mas para onde?"
(Teresa Coelho)
2009
Nossa morte, nossa dor...
Parecem ser as mesmas!
Deixe-me entardecer na pólvora...
Já não sinto vontade de correr
Só queria pular...
Mas para onde?"
(Teresa Coelho)
2009
domingo, 30 de janeiro de 2011
Olhos apagados
Um cenário frio com cores quentes; era só o que via e sentia no coração da menina com os olhos negros e opacos. Nada estava mais distante naquela tarde de que o descompasso de sua respiração com as palavras. Tudo o que ela queria era falar. Eu juro que era só isso. Mas o passado dela, o cheiro e a boca de seu amor tão de perto a fizeram engolir folhas secas com areia. Porque perto de toda sua alma e da falta de palavras, estava o corpo que ela nascera, vivera e agora estava morrendo. Morrendo do corpo que mais amou durante sua curta vida. Enquanto as folhas com areia rasgavam sua garganta e sugavam sua vida, o mundo não parava de inchar. No mais as bocas se tocaram, se usaram, se renovaram. A menina dos olhos apagados conseguiu sorrir... Ela conseguiu sorrir!Só que o filme acabou. Ela foi embora e nunca mais sorriu.
Teresa Coelho
31/01/2011
Teresa Coelho
31/01/2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Nunca estive
Acho que eu não existo, e se existo deve ter alguma coisa mofada na minha essência, ou eu nunca consegui me encaixar em mim. Talvez eu esteja só dormindo ou qualquer outra coisa que não pertença a existir e estar viva. Mas não digo que não estar viva é estar morta, a morte não existe, nem a vida. Eu não quero que elas existam. Queria ser uma folha e cair de repente; cair em cima de um casal de namorados e atrapalhar o beijo, provocando um sorriso. Atrapalhar com leveza e calma o amor. Despedaçar no chão e sumir dentro da terra. Preciso que a terra me engula e me chupe até o estado do êxtase de minha inexistência. Não quero pertencer a nada nem a nenhum sentimento que possa me corroer; amadurecer desgasta e deixa as pálpebras pesadas. E ainda tem o seu cheiro, quero que ele deixe de existir também, mas não, pensando melhor quero esquecê-lo. Lembrar dói. Não sei pedir pouco, não sei exigir pouco, não sei amar pouco. Minha carência não tem dono, me perdoe, mas quero seu corpo e também o de qualquer amor que me aparecer por caridade. Sou uma imaginação de carne que anda, fala pouco, olha tudo e odeia todo mundo com a mesma intensidade que ama. Existir para mim é o mesmo de não existir. Estou aqui, mas também não estou.
Teresa Coelho
23/01/2011
Teresa Coelho
23/01/2011
domingo, 16 de janeiro de 2011
Pó
Repus
Refeita
Enfeita
O toque nos pêlos
Que aos poucos excita
E grita, parando de doer...
Treme, treme, treme
Ai, a vida!
Ai, tudo que tem vida!
Respira
Inspira
Transpira!
Gira...
Girou nos meus braços
Mas agora se foi
E eu me fui também...
(Teresa Coelho)
Refeita
Enfeita
O toque nos pêlos
Que aos poucos excita
E grita, parando de doer...
Treme, treme, treme
Ai, a vida!
Ai, tudo que tem vida!
Respira
Inspira
Transpira!
Gira...
Girou nos meus braços
Mas agora se foi
E eu me fui também...
(Teresa Coelho)
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