terça-feira, 26 de março de 2013

Desaparecendo


Os olhos cansados eram os faróis daquele trem. Os trilhos enferrujados escondiam o escuro por trás do penúltimo vagão, onde a poeira era misturada às cores artificiais das lágrimas. Lágrimas simulam nosso corpo transcendendo. Perdi-me quando não consegui pular para fora dos trilhos – era o último trem da minha história. E só pude lembrar quando já não havia mais tempo para fechar os olhos – como numa arrebentação súbita – o trem não mais fazia parte daquela estrada, ele era eu com os seus olhos vagos, que iam além da vida.

(Teresa Coelho)
27/03/2013

quinta-feira, 14 de março de 2013

Jardim


Quando no fim da tarde a árvore subia pelo meu corpo
Ela subia tão alto que se desfazia na claridade
De um verde céu que não cabia dentro dos olhos
O verde escorria até meus pés feito um voo
Que soprava a terra fofa e o mato batido
Corri
Sem me dar conta de que a estrada já anoitecia
E eu, que conhecia tão bem aquele caminho
Senti imensamente medo de não saber voltar
Com os mesmos pés corridos, com a mesma
Imensidão
Eu queria esconder o tempo atrás do sorriso da minha mãe
Então eu me lembrava dela sorrindo para mim
E voltava a me confundir com as árvores
À procura de mim, dela e do verde
Que fez do céu
O dia mais feliz
Daquela tarde.

(Teresa Coelho)
15/03/2013

domingo, 10 de março de 2013

Meu bem


Vê se fica pelo menos até amanhã
Enquanto a cama ainda acalma o dia
Vou te guardar no potinho de açúcar
E só abrir quando a segunda-feira for embora.

(Teresa Coelho)
10/03/2013

domingo, 3 de março de 2013

Eco


Depois que desci do ônibus, havia só uma passarela escura, um hospital velho e alguns carros correndo apressados às suas casas, para enganar o cansaço. Fui o trecho do caminho pensando se eu teria esquecido as chaves de casa em cima da mesa do bar ou se eu poderia ter ficado mais tempo no ônibus – como se alguém atormentasse o céu tentando limpar as nuvens carregadas. Quando entrei em casa, senti meu corpo socorrendo minha alma, enquanto você ecoava na ausência onde o resto do café da sua última xícara fazia o vento congelar minha garganta num nó agudo, da sandália no canto da sala, como se os seus pés ainda estivessem lá, da toalha pendurada em cima da minha, quando ainda era o seu corpo que se pendurava à minha cintura. Confundi o quarto com o seu cheiro de erva doce amadeirada e a cama era uma veia que pulsava fora do corpo. A noite transfigura o rosto numa parte solta à realidade. O travesseiro parecia ressoar sua risada sem roupa – sua boca sorri sem roupa. Você ecoa por toda a casa, na chuva, lá fora. Se eu não tivesse descido do ônibus nem lembrado das chaves, eu não teria conhecido você, aqui, dentro de mim.

(Teresa Coelho)
04/03/2013

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do que já não é mais azul


Suporto mais perto de mim o que não
Pressente com fluidez o espírito saindo
Pela janela gradeada do oitavo andar
Onde a luz é um feixe na parede desbotada
De uma metáfora suja sobre o que não significa mais
Estar em casa, ter um lar ou fingir que escreveu
A primeira carta de amor da sua vida quando
Já não soube mais voltar para si mesmo

(Teresa Coelho)
01/03/2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Ilusão que dança


As cortinas movem as silhuetas dos fantasmas e da luz,
Dançam de luto vermelho um tango para a noite
Dos bares outrora, das pernas que se entrelaçam
Na madrugada perene, no chão úmido dos solados
Quase mastigados pelo suor que escorre
Do batom desbotado das bocas fulminantes.
Quando o mofo nas cortinas limita-se
A um fluorescente entardecer
O vento para de fazer poesia
E as cortinas cessam
Em panos velhos.

(Teresa Coelho)
25/02/2013

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Quadro


O rio brando não existe na tela
Que martela na minha cabeça
A ponto de mergulhar
No chão de fumaça
A concreta forma sem fôrma
Da aquarela que se derrete
Entre meus dedos e vísceras
Os únicos dias que pude
Ver com tamanha exatidão
A primeira pintura parida
De meus dois olhos negros
Foi uma dor surrealista
Tão feita a esmo
Feito redemoinho
Que não cessa no peito
Do vento branco
Fuligem

(Teresa Coelho)
17/02/2013