sexta-feira, 20 de abril de 2012
Traço
Minha solidão veste púrpura enquanto maquia sua cor real no canteiro do meu sorriso. Ultrajo a cor do sol para poder desaparecer despercebida no fim das tardes. A aurora de meu despertar é um relógio parado, desencontro fantasioso com o tempo. Acordar é fantasiar o tempo. Mas o rastro que deixo nesse caminho pequeno é maior que minha solidão, e agora eu já posso caminhar sozinha.
Teresa Coelho
20/04/2012
sábado, 31 de março de 2012
Engano
Meu orvalho é um galho seco
E a flor que caiu no meu peito
O vento engoliu
Engoliu flor
A flor engoliu o vento
Mas a flor que engoliu o vento
Não sabia que era oca
Era oca, pois a flor
Porque de tão vazia
De tão vazia...
Só tinha cor
E o que restou da flor,
Que não sabia engolir vento
Foi aprender a tragar da sua cor
Que só o vento pode engolir
E mesmo que no mundo tudo se engula
O meu orvalho continuará seco
E a flor oca
Cor.
Teresa Coelho
31/03/2012
E a flor que caiu no meu peito
O vento engoliu
Engoliu flor
A flor engoliu o vento
Mas a flor que engoliu o vento
Não sabia que era oca
Era oca, pois a flor
Porque de tão vazia
De tão vazia...
Só tinha cor
E o que restou da flor,
Que não sabia engolir vento
Foi aprender a tragar da sua cor
Que só o vento pode engolir
E mesmo que no mundo tudo se engula
O meu orvalho continuará seco
E a flor oca
Cor.
Teresa Coelho
31/03/2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
Do outro lado não tem luz
Eu sei que havia o outro lado, intacto. Sempre haverá o outro lado, e eu nunca vou enxergá-lo – a gente só se preocupa mesmo com a parte vazia. Sinto fome e não alcanço minha boca, sinto que estou dormindo, e se eu acordar, o mundo todo vai desistir de mim. Minha libido ficou oca, só meus olhos umedecem e gritam... Eu sinto uma urgência em tudo, em tanta coisa desnecessária, na pele que ficou incrustada nos espaços despercebidos, naquela poesia suja, e quando lembro que você faz falta em cada parte do meu corpo, sinto vontade de me arrancar dos poros ao sangue, até me desfazer do que eu era, do que você tocou. É assim, é que a vida vai seguindo, mas eu vou me apagando, sumindo, desistindo. Ninguém pode ver o outro lado, se ele não existe mais. A escuridão sufocou a luz do meu palco mesmo antes de você sair pelos fundos desse espetáculo falido.
Teresa Coelho
12/03/2012
Teresa Coelho
12/03/2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
Essa coisa mofada
Eu me vejo no espelho e quase não sinto o tempo passar, mas escorre na minha veia alguma coisa mofada, e me sinto amarga como se tivesse envelhecido décadas antes de ter nascido. Eu nasci com uma parte torta, machucada. Vou ser sempre uma criança machucada de mãos dadas com uma canção triste. Por dentro há um êxtase de expressões, por fora, só um rosto feio e distante. Um falso amargo de um falso tempo, de uma falsa e interrompida felicidade. A carne é falsa, a pele é crua, é cru o sorriso, é falso quando eu corro à procura de mim. Procuro no reflexo vazio o brilho de alguma coisa, no fim deve haver a essência dessa coisa... Mas que coisa?! Eu sempre cito essa coisa perdida em mim, e eu nem sei se ela existe mesmo. Deve ser só mais uma desculpa para os meus lamentos. E no final, essa coisa termina sendo eu e todas as pessoas que perco na vida. Abrigo a esperança daquilo que nunca vai acontecer. E assim como esperar, escrever, para mim, é como nunca sair de um papel em branco.
Teresa Coelho
09/03/2012
Teresa Coelho
09/03/2012
domingo, 26 de fevereiro de 2012
Triste fim do azul sem céu
O amor é esse escárnio que sempre acaba rompendo meu âmago. Eu não consigo seguir um fluxo que me liberta, desde que você deixou um gosto amargo em tudo que já lhe escrevi, sinto você de fora para dentro em minha vida. Sua menina do amor azul derreteu o céu, amassou os ossos das nuvens e descobriu que elas eram livres; o azul se foi e ficou o branco, o pardo, restando esperar algum pássaro que gritasse e colorisse mais uma vez a mentira sobre a dor. Ainda sinto os fios do seu cabelo costurando meus olhos na fantasia que acobertava nossas fugas, e de todas essas fugas, eu nunca mais encontrei o caminho de volta nem tampouco percebi que você já tinha ido embora. Você se foi com o sorriso que um dia foi meu.
Teresa Coelho
26/02/2012
Teresa Coelho
26/02/2012
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Batom vermelho
Eu fui parida sem a parte do sêmen, por isso nunca conseguiram me deixar bonita esperando a vida sem dor. Ninguém escolhe a solidão que carrega dentro da infância. Hoje eu choro porque nunca me ensinaram a falar, porque meus olhos me encaravam no espelho e eu não podia desabar, me obrigava a passar o batom vermelho nos lábios pequenos, embaixo da cama, sem fazer barulho, sem usar espelhos. As lágrimas não deviam borrar meu batom, não deviam revelar meu rosto perdido. Eu chego perto das minhas bonecas, e elas são tão feias, mas são minhas, contam o que me reflete. Uma vez disseram que os bois viriam me pegar e iriam machucar, mas outro bicho me machucou, um bicho igual a mim, e ainda dói, ainda dói porque eu não soube falar, eu só chorava... Por culpa dele meu batom vermelho borrou, escorreu feito sangue no meu corpo virgem e feio. Tento fugir dessas ausências criando pessoas que permanecem ocupando os espaços vazios e costuram meus versos como uma desculpa por existir. Mas esta noite terminei de limpar o batom vermelho que um dia desfez meus sonhos.
Teresa Coelho
14/02/2012
Teresa Coelho
14/02/2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Pros meus olhos
Guardar o teu cheiro dentro do meu sorriso. Guardar em segredo o teu sorriso.
Teresa Coelho
08/02/2012
Teresa Coelho
08/02/2012
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