quarta-feira, 30 de julho de 2014

"Don't try"

A Charles Bukowski e a todos os fantasmas que dormem durante o dia 

a pupila dos quatro cantos do meu coração dança no fundo da única cerveja que consegui comprar, três reais e 50 centavos. os ônibus estão em greve e faz seis dias desde que esfreguei minha mão no pau amarelo da jaula ambulante - catarro dentes podres merda hipocondríacos putas biscoitos suor punheta bíblia pessoas perdidas touch screen. veja: o que aproxima a privada do banheiro da minha casa ao boteco mais próximo da esquina é o medo. eu sinto muito a tua falta e a maneira de como tu me comia naquela casa antiga sem cama. eu sinto muito. eu sinto muito medo. às vezes esqueço o som da minha voz desde que me mudei para a casa do canal e das crianças sem pais. aqui ninguém tem identidade. "you're gonna make mistakes, you're young". todos os dias eu tenho que dizer ''débito'' para a moça que não sorri para mim e ela depois pede minha senha. sinto medo novamente. ninguém se importa depois que você disser "obrigada" e for embora. eu estou no meu quarto agora e estou passando a língua nos meus dentes porque sinto muito medo de perdê-los enquanto algum muro estiver caindo nos miolos de alguma criança do outro lado do mundo. próxima semana eu começo a terapia. não. prometi que isso não seria sobre minhas mentiras. próxima semana eu continuarei sem tempo para me depilar. tem uma barata com o corpo arregalado na cozinha e sua mãe não poderá vir ao enterro e nem eu poderei enterrá-la porque eu preciso me acostumar a sentir medo. eu sou um monstro. às vezes fecho a porta do quarto com muita força porque lembro que não haverá ninguém para me salvar. tu lembra do dia que eu te mandei uma carta pedindo desculpas por ter gostado do jeito que tu sentou naquela escada e nunca me abandonou? não. tu nem sabe disso. eu ainda usava uma blusa "the grunge is not dead". eu queria que um dia tu soubesse que eu não consegui me tornar uma pessoa melhor depois de todos esses anos. eu sinto falta do meu all star vermelho. eu já tive dengue duas vezes e já mergulhei de costas numa piscina. não tenho ido bem na universidade. eu sinto muito. faz uma hora que a cerveja acabou. tu poderia apagar a luz? e ir embora. eu sinto muito medo.

Teresa Coelho

30/07/2014

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Bioluminescência

Solta a minha mão
Condenada
A acenar
Para os ambulantes
Que não me oferecem
Nada em troca
Pelos vaga-lumes
Que extraviam a luz
Para uma invisibilidade
Quase (des)humana
E enlouquecem
Numa transgressão cega
De vida

Teresa Coelho
14/05/2014



domingo, 6 de abril de 2014

O 3º ciclo de Saturno

Já não sei mais
Em que ciclo de Saturno
Meus poros vão fechar
Se eu seguir o tempo que
Foi perdido
Na pressa do sol
Cor púrpura de uma flor
Morta
Meu perdão será o trilho
De que Deus?
Quando bastava a verdade
Para esclarecer tudo
Escolhi abandonar
Minha liberdade
- Não posso existir.

(Teresa Coelho e Marcelo Júlio)

28/03/2014

domingo, 1 de dezembro de 2013

Quatorze de outubro de dois mil e doze - o amor é brega

Derrama leite em pó pela casa
Faz café na garrafa suja
E pensa que eu não sei
Quando entra no quarto
Com os pés descalços
E joga o sutiã na cadeira
Enquanto eu fico só
De calcinha bege
Porque o amor não
Liga para as cores
Ele desnuda

Teresa Coelho

01/12/2013

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Bueiro do meu corpo

As luzes dessa água
Que se afogam nas pontes
Das fontes imundas que
Invadem as calçadas
Onde o teatro ao ar livre
É só suspiro de loucos
E olhos de náilon
Sugam minhas pálpebras
Até derreterem no sol de cera

Enquanto do outro lado
Do meu coração desabrigado
Sonhos e abraços efêmeros
São pinturas silenciosas
À margem da minha
Esquizofrenia
Ontem eu fiz o mesmo caminho
E a minha casa parece
Ter ficado submersa
Em alguma estação
De ônibus

Teresa Coelho

12/09/2013

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Hiato

Onde deixei cair o par de flores
que sustentava os jarros de olhos
daquela língua que me fitava
como se fosse espatifar no céu
antes de me acordar?

(Teresa Coelho)
05/09/2013

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Espasmos

Tua mão
madeira oca
bate na minha porta
já são horas sem roupas
de cabeça para baixo
a via láctea nua

São dois montes
as nascentes
púrpura rosa
cor sem pele
o centro do universo
faz das convulsões
as tuas pernas

Em cima
dos meus ombros
quanto vai durar
uma noite entre
o infinito e o mundo?
segundos...

(Teresa Coelho)

31/07/2013